A castidade da inteligência

Mons. João S. Clá Dias,EP

A castidade natural da inteligência consiste numa lealdade em face da realidade objetiva, numa busca da verdade, sem apego às próprias opiniões ou inclinações, uma vez que o homem é criado com a faculdade para conhecer retamente, e não para deformar sua visualização sobre a obra da criação. Na proporção em que penetra nas realidades dos seres em busca de uma união maior com Deus, ela cresce em sua capacidade de analisá-las com integridade, elevação e pureza.

Pelo contrário, se o homem perde essa castidade natural da inteligência, ao negar-se a procurar a Deus na obra da criação — e isso acontece sempre — as trevas penetram de certo modo em seu coração, podendo levá-lo à idolatria, conforme nos afirma o apóstolo: “Com efeito, a ira de Deus manifesta-se do céu contra toda a impiedade e injustiça daqueles homens que retêm a verdade de Deus na injustiça[1], porque o que se pode conhecer de Deus é-lhes manifesto, pois Deus lho manifestou. De fato, as coisas invisíveis dele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis, e assim o seu poder eterno e a sua divindade[2], de modo que são irrecusáveis, porque, tendo conhecido a Deus, não O glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas desvaneceram-se nos seus pensamentos e obscureceu-se o seu coração insensato, pois, dizendo ser sábios, tornaram-se estultos, e mudaram a glória de Deus incorruptível na figura de um simulacro de homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e de serpentes” (Rm 1, 18-23).

Depois de empreender os movimentos iniciais nas veredas do uso da razão, com seus puros e naturais recursos, logo nos primeiros esforços para compreender os seres criados que o circundam, pode o homem conceber a idéia da existência de Deus. Verá que Ele se constitui no ser absoluto, causa eficiente de toda criação, conservador do universo. Não tardará em se dar conta de ser Ele o fim supremo de cada criatura em particular, como também do conjunto de todas elas. Por isso, conforme lemos nesses versículos de São Paulo, uma inteligência virginal, jamais “retém” em si mesma o conhecimento desinteressado e, portanto, nunca recusa os ensinamentos nascidos das realidades criadas, assim trilhando as vias em busca de Deus, a não ser que já O tenha encontrado. E mesmo neste caso, crescerá nela, o desejo de ainda mais e mais reencontrá-Lo.

Eis, naturalmente falando, uma inteligência casta. Nesse caminho da descoberta de Deus, essa inteligência, nEle repousará, contemplando Seus esplendores em Sua obra, com inteira abertura, sem a menor resistência, e até mesmo reticência, com integridade, submissão à realidade que conduz ao divino, e na mais perfeita lealdade.

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[1] É preciso inteligir e agir em consequência do conhecimento que o homem tem de Deus e de Sua natureza através da obra da criação, caso contrário, esse conhecimento se torna enclausurado na maldade do pecado original, na qual todos nós nascemos. Uma vez retida essa “verdade de Deus”, o conhecimento passa a ser inativo.

[2] “Deus, criando e conservando todas as coisas por meio de Seu Verbo, proporciona aos homens nas coisas criadas, um testemunho permanente de si mesmo…” (Dei Verbum, 3 – Concílio Vaticano II).

A Castidade da inteligência: precioso fruto da plena doação de nossa inteligência a Deus

pensadoresMons. João S. Clá Dias, EP

A virtude da Fé nos facilita penetrar além dos umbrais de nossa acanhada natureza, e tomar consciência das profundezas dos liames que unem o universo a Deus. O Criador o transcende infinitamente e, portanto, não há a menor confusão entre Ele e a criação. Porém, é Deus quem mantém as criaturas no ser, como também cada um de seus elementos constitutivos, e até mesmo, é a causa eficiente da santidade que possa existir em cada uma delas. Daí ser-nos necessário o apoio das Sagradas Letras para aprimorar em nós o senso de Deus. Nelas encontraremos as verdades claramente expostas com extremo fervor por Cristo Jesus, sobre a vida íntima de Deus, os atributos do Pai e do Espírito Santo etc.

Assim, a presença de Deus e a própria ação divina, tanto a permanente quanto a atual, sobre todas as criaturas, serão discernidas — ainda que muitas vezes em meio a uma certa penumbra — por uma Fé robusta e viva. E isto consistirá, de certo modo, em alguma participação no conhecimento que Deus possui sobre Si mesmo e sobre o universo. Será a mais elevada vida intelectual, na qual a intensidade dessa virtude teologal determinará maior ou menor penetração (e domínio) desta, naquela.

A Fé, portanto, não constitui um estorvo para a cultura como erroneamente poderia parecer a espíritos menos avisados. Muito pelo contrário, determinação, certeza e substância são conferidas à inteligência que nela se fundamenta. Ela diviniza as qualidades humanas, e jamais as prejudica. E nossa inteligência, assim divinizada, passa a compreender tudo sob o prisma de Deus. Aí estará alojada a castidade de nossa inteligência que consistirá numa íntegra lealdade em face das realidades objetivas e do próprio Deus, tudo analisado com uma esplendorosa clareza devido a uma maior ou menor participação no conhecimento incriado. Ela é um precioso fruto da plena doação de nossa inteligência a Deus, fruto, por sua vez, da iniciativa dEle em nos escolher e de nós tomar posse: “Não fostes vós que me escolhestes mas, fui eu que vos escolhi” (Jo 15, 16).