O vinho usado na Celebração Eucarística

Adaptado de: Samuel Alemão: Vinho de Missa in Noticias Sábado, 2 Fev 2008 / Os sabores da fé. In Expresso, 20 de Out 2001.

”Este é o Cálice do Meu sangue, o sangue da nova e eterna Aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim”. Com o cálice elevado, o sacerdote marca a solenidade… Depois de um breve compasso, baixa-o e bebe um pouco de vinho, prosseguindo com a liturgia. Esta é uma cena que se repete, desde os primórdios da Cristandade, em qualquer local onde tenha lugar a celebração da missa.

Na Idade Média, os vinhos de missa começaram a ser produzidos pelos monges beneditinos e cisterciences, grandes impulsionadores da vinha na Europa – explica António Ventura, enólogo das Caves D. Teodósio.

Porém, muitos crentes ignoram que tipo de vinho é usado para a consagração. Alguns interrogar-se-ão se será vinho comum, como aquele que bebemos à mesa, ou até se será sempre tinto. Desconhecem, inclusive, que também é engarrafado e, depois de aberto, colocado em pequenas galhetas, as quais são vertidas para o cálice durante a celebração. Há, entretanto, quem se preocupe com a qualidade do néctar.

”O vinho é uma arte, requer conhecimento. As uvas podem dar origem a algo bom ou ir parar às mãos de um mixordeiro”, afirma o cónego Álvaro Bizarro, que no Patriarcado supervisiona a produção enológica. Trata-se de uma pessoa abalizada- além de membro da Igreja, produz vinho há muito anos. É um apreciador e, como tal, gosta de saber que aquilo que os seus colegas bebem não é qualquer zurrapa.

”O vinho é o continuador da tradição. Foi usado, tal como o pão, como sinal da Aliança”, recorda o cónego, confessando que, apesar de toda a simbologia associada à cor do vinho, muitos são os padres que preferem usar vinho branco para evitar sujar os panos utilizados na celebração litúrgica. Apesar de muitos vinhos de missa poderem ser qualificados como licorosos, não é obrigatório que assim seja. Por norma, o que define o vinho de missa são os preceitos adoptados na sua elaboração e os seus componentes.

”Pedem-nos vinho feito de acordo com os processos naturais’ diz Francisco Antunes, enólogo das Caves Aliança, sediada em Sangalhos.

Existe uma ‘receita’ estabelecida para que o vinho seja considerado de acordo com os processos ‘naturais’. Para o conseguir limita-se a uma percentagem de 6 por cento a quantidade de produtos não vínicos utilizados na elaboração desse vinho, como sejam o ácido tartárico e os sulfitos. Por outro lado, também se estabelecem limites para o uso de produtos de origem vínica na feitura do vinho de missa. É o caso da aguardente, que serve para interromper o processo de fermentação, impedindo que o produto final seja muito doce. No caso das Caves Aliança, o Tabor resulta de um estágio em barricas de madeira antes utilizadas na produção de ‘bourbon’. Método que não se utiliza na Seminagro, cujos vinhos não são sujeitos a amadurecimento em madeira.

Como se disse, muito do vinho de missa pode ser encaixado na categoria dos licorosos, mas como salienta Mário Policarpo, que zela pela produção saída dos 17 hectares de vinha pertencentes ao Patriarcado de Lisboa, o importante é que existam uvas que valham a pena vinificar.

”Desde que façam vinho de qualidade, servem para fazer vinho de missa”, diz.

“Também se podem utilizar vinhos licorosos, semelhantes aos vinhos de missa. No dia do meu casamento, o frei dominicano que celebrou a cerimónia utilizou um velhíssimo Moscatel de Setúbal”, confessa Paulo Laureano, enólogo e consultor de vinhos em várias adegas de Portugal.

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