O senso do maravilhoso capaz de regenerar o homem

auroraMons. João S. Clá Dias, EP

O homem é um todo substancial, harmonioso, constituído de um corpo cuja forma é a alma, e potências: vegetativa, sensitiva e intelectiva, que interatuam. Assim, se alguém, durante um passeio pelo campo, se encontra com um touro furioso, produz-se no organismo uma série de reações em cadeia: a glândula suprarrenal injeta imediatamente adrenalina no sangue, o coração se acelera, os brônquios se dilatam e a respiração também se acelera. A sensação de medo provoca reações fisiológicas que colocam o corpo em um estado correspondente à alma. Existem, pois, os estados físicos de medo, vaidade, coragem e muitos outros.

Entretanto, existe também o estado físico provocado pelo maravilhoso, que produz enorme bem estar e dispõe para o esforço e para a dedicação ao bem. A saúde se beneficia, uma série de indisposições orgânicas entram em ordem e se enfrentam melhor os estados de aflição e angústia. O deleite produzido pelo senso do maravilhoso é insuperável. Uma “experiência do maravilhoso” está ao alcance do homem e, quando bem assimilada, produz no organismo um efeito que poderá ser comparado a alguns medicamentos e antidepressivos. O que não quer dizer que os medicamentos não devam ser utilizados, mas a “maravilho-terapia” poderá favorecer uma recuperação mais rápida e eficaz.

Bosques, campinas, montanhas, as variações do céu diurno e noturno, as auroras e os ocasos, o mar majestoso… são remédios naturais postos por Deus à nossa disposição. Mas não são os únicos; também as obras humanas, as netas de Deus, segundo expressão de Dante.1

Faz parte da arte de bem viver o aproveitar tudo o que possa ser objeto de contemplação. O maravilhoso é o melhor da realidade, e aponta para o Absoluto. Os medievais eram especialistas nesta arte e fomentavam com naturalidade a “celestialização” das coisas; tudo o que faziam tendia ao ápice do maravilhoso. Comentava Dr. Plinio Corrêa de Oliveira que “a alma maravilhável é uma alma maravilhosa, capaz de fazer maravilhas”.2

O homem de hoje não perdeu a capacidade de admirar, por mais que a sociedade lhe faça muitos outros convites. É preciso proporcionar-lhe ocasiões para, maravilhando-se, discernir nas coisas aquilo que elas têm de belo, de bom e de verdadeiro, ou sua ausência, e com isto poder voltar-se para o essencial: Deus.

D. Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, descreve a adesão daquele que deixa “seduzir-se” pela Beleza que salva:

“É no interior da evidência objetiva, que se deixa perceber a partir do sujeito com a  primeira reação do ‘espanto’ e da ‘admiração’, que se encontra já a força que leva o homem a reconhecê-la como bela e, portanto, boa e verdadeira e por isso mesmo cheia de sentido para ser amada e seguida”.3

1 ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. X vol. Trad. de Pinto de Campos J.; Augusto Falcão C. e Della Ninna A., São Paulo [s. d.]. Vol. II.  Inferno, canto XI, verso 105.

2 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A admiração é a nossa estrela de Belém: Pronunciamento. São Paulo, 13 maio 1988.

3 FISICHELLA, Rino. Introdução à Teologia Fundamental. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2006. p. 142.

Se tudo é verdade, o que é a verdade?

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Diác. José Victorino de Andrade, EP

O homem hodierno julgar-se-ia menos moderno se não criticasse os antigos. Para ele, as verdades passaram a possuir uma validade. As descobertas do passado foram ultrapassadas pelo presente, e sofrerão reparos no futuro. Tudo é transitório. Apenas a opinião alheia se enche de brios, pouco disposta a dialogar, ou pelo menos, a reconhecer uma verdade exterior.

Consequentemente, muitos autores contemporâneos, ao pretenderem apoderar-se da verdade, sentam-se em sua cátedra embevecida de pretensões infalíveis, cujos escritos destilam os seus próprios dogmas, muito distantes, por vezes, do mundo real. E quanto mais escandalosos, provavelmente, mais publicitados e comentados.

As fátuas inverdades emanadas vão ao encontro de homens ávidos de mudanças que transformem a sua existência, consequência do vazio deixado pelo rechaço à metafísica e aos seus interlocutores. Ao enveredarem por novas vias que criam uma ruptura com as antigas, aderem facilmente a novos projectos que lhes tragam uma libertação dos velhos preconceitos éticos.

Numa cultura hedonista, na qual as a igreja foi substituída pelo shopping, a beleza da virtude pela estética corporal, o jejum e a penitência pela dieta e o suor no ginásio, uma religião de dogmas e prescrições morais só poderia surgir ao pensamento contemporâneo como algo ultrapassado, impositivo, que asfixia a própria pretensão de verdade.

Assim, nega-se a verdade na sua transcendência absoluta, da qual dimanam todas as demais, e corre-se o sério risco de “panteistizá-la”. Todos com a verdade, e a verdade com todos. Se tudo é verdade, terá sentido o próprio termo? Como convidar o homem a sair de si, e dos seus preconceitos recentemente criados, a esmo, conforme o cardápio apresentado por verdades relativizadas, engolidas sem mastigar, que o empanturram de critérios pouco judiciosos, assimilados com a mesma rapidez com que muda o canal da TV?

A resposta não é uma verdade abstracta, mas uma pessoa concreta: Jesus Cristo, a “Palavra eterna que se exprime na criação e comunica na história da salvação” (Verbum Domini n. 11). Para o cristão, a Verdade absoluta, Deus, encarnou e fez-se homem (Cf. Jo 1, 14), possui um rosto — “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9) — e um nome, não havendo debaixo do céu salvação em nenhum outro (Cf. At. 4, 12). Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Cf. Jo 14, 6). Esta é a grande novidade do cristianismo, um Deus pessoal, não distante, que entra na História.

Como renunciar Àquele que possui palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68), e trocá-las por palavras humanas, levadas e esquecidas pelo tempo, ou superadas por uma nova erudição ou pensamento falível? Em Jesus, “a Palavra não se exprime primariamente num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade” (VD n.11). Esta, excede toda e qualquer capacidade intelectual humana que “com as suas próprias capacidades racionais e imaginação, jamais teria podido conceber” (Loc. Cit.).

Como chegarmos à conclusão de que não nos enganamos? São João é nossa testemunha: “‘Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai, como Filho único cheio de graça e de verdade’ (Jo 1, 14b). A fé apostólica testemunha que a Palavra eterna Se fez Um de nós” (VD n. 11). Apenas a Revelação poderia trazer uma verdade plena que orientasse os homens em sua peregrinação terrena e os levasse a um seguro conhecimento, tanto quanto possível à sua natureza limitada.

Descobrimos assim que a verdade não é abstracta, variável, limitada, mas que é o próprio Deus encarnado, que entrando na história concreta dos homens, com Palavras de vida eterna, orienta-os na sua peregrinação terrena, convidando-os a conformar a sua vida à luz da Revelação.

V Domingo Páscoa

clerusTexto recebido de Clerus.org

Neste quinto domingo do tempo pasqual, a Igreja nos propõe, como na última semana, um texto do evangelista São João, onde o Senhor revela aos próprios discípulos, algumas verdades profundas sobre a sua identidade.

O motor, aquilo que faz com que o discurso desenvolva-se entre os interlocutores protagonistas do texto bíblico em questão, não é um genérico desejo de felicidade, mas aquilo que representa o coração das expectativas mais profundas, próprias dos homens: o desejo de ver a Deus face a face! «Disse-lhe Felipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta”» (Jo. 14,8).

A postura dos que falam com Jesus poderia representar para nós um escândalo. De fato, o inciso de Felipe – “nos basta” – como também aquilo que Tomé fala em relação ao seu desconhecimento do lugar para onde iria Jesus, e, por isso, a impossibilidade de seguí-lo (cf. Jo. 14.5), colocam os dois Apóstolos numa situação difícil, fazendo-nos, inclusive, a tomar certa distância dos mesmos. Na verdade, quantas não foram as vezes que, em nossas jornadas, deixamos que o torpor da nossa fé deixasse o nosso espírito penoso de suportar, obscurecendo a nossa mente, deixando-nos como que cegos diante das “obras” que o Senhor realiza em nossas vidas? E assim, desconsideramos a importante chamada de Jesus: “Crede-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Crede, ao menos, por causa destas obras” (Jo. 14,11).

Trata-se de uma verdade inegável: sempre afirmamos de seguir o Senhor, e o dizemos de verdade, mas tal sequela poderia ser só a nível intelectual. Isto ocorre porque não deixamos sedimentar em nós a Sua Palavra, não a deixamos germinar através da oração (cf. At. 6,4), mas principalmente, não damos a nossa disponibilidade para que, regenerados pelos sacramentos, Cristo faça-se presente através da nossa humanidade, “para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus” (1Pd. 2,5).

O Senhor Ressuscitado, vencendo a morte deu-nos o exemplo e abriu para nós as portas do Paraíso, mostrando-nos, assim, não só que Ele é o caminho que nos conduz ao Pai, mas também a verdade e a vida: “Quem me viu, tem visto o Pai” (Jo. 14,9).

Peçamos ao Pai que continue dando-nos o seu Espírito, para que seja claro em nós, que só através de Cristo podemos conhecer os bons desígnios  que a Providência pensou para a nossa vida, de tal forma que a nossa esperança e as nossas ações estejam fundadas somente Nele. Dessa forma, será mais simples dar-se conta que o Senhor está sempre ao nosso lado, e, assim, poderemos ser instrumentos eficazes para que Ele se manifeste a todo o mundo.

É uma tarefa que nasce da preferência de Deus: para os primeiros discípulos, como vemos na segunda leitura, estava claro o fato que eram preferidos: “Vós sois a gente escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa” (1Pd. 2,9). Devemos nos apropriarmos de novo desta consciência, pois experimentando a nova vida em Cristo, possamos cantar com o salmista: “Exultai, justos, no Senhor, que merece o louvor dos que são bons” (Sl. 32,1).

A escravidão a Nossa Senhora enquanto suprema liberdade

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Dr. José Mário da Costa

A forma suprema da liberdade consiste em aceitar a autoridade daqueles que nos ajudam a praticar a verdade e o bem, ou seja, a fazer aquilo que de fato queremos. Não há, portanto, forma mais cristalina e mais sublime de liberdade do que sermos escravos de Nossa Senhora. É o auge da dignidade humana, porque é fazer, em tudo, aquilo para onde as nossas melhores apetências caminham.

Qual é a conseqüência disso para nós, quando formos nos consagrar a Nossa Senhora? É levarmos um espírito amoroso de autoridade, isto é, compreendendo a função da autoridade, compreendendo a função da obediência e compreendendo que, fazendo-nos tão pequenos diante dEla, fazemos uma coisa sublime, uma coisa altamente dignificante. Não devemos nunca nos envergonharmos de obedecer, de seguir um outro, porque exatamente aí está a mais alta dignidade do homem.

Neste ponto de nossa argumentação, alguém poderia perguntar: “Esta doutrina da escravidão de amor a Virgem Maria é linda! Mas qual seria a sua utilidade prática? E que relação teria com a tese da nossa pesquisa?”

É São Luiz Maria Grignion de Montfort quem vai responder a estas duas perguntas. O capítulo V do seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem tem como título:  Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor. (Grignion de Montfort, 1961, p. 145).

Em seguida, explica o santo: “Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição cristã.” (idem, p. 145). Ele faz uma longa demonstração desta tese em seu Tratado. (ibidem, p. 146-163).

Portanto, conforme ensina São Luiz de Montfort, a perfeição cristã consiste na união com Nosso Senhor, e a escravidão de amor a Virgem Maria, ensinada por ele, é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para se chegar a esta união.

Em resumo, a doutrina do santo consiste na consagração de si mesmo a Jesus pelas mãos de Maria. “Assim será um fiel e amoroso escravo de Jesus e Maria quem, pelas mãos de Maria Santíssima, se entregar inteiramente ao serviço deste Rei dos reis, e que não reserva nada para si”. (ibidem, p. 131).

Em vista disso, uma grande difusão dessa forma de devoção à Santíssima Virgem seria um forte instrumento para conduzir os homens à vida eucarística, trazendo assim de volta ao redil de Cristo as ovelhas desgarradas.

Imutabilidade intrínseca e extrínseca da Lei Natural

reloPe. Leopoldo Werner, EP

Imutabilidade intrínseca

A lei natural, em si mesma, é imutável, pois seus primeiros princípios são inerentes à consciência humana e não desaparecem por meio das vicissitudes da História, como ensina o Catecismo da Igreja Católica:

A lei natural é imutável e permanente através das variações da história; ela subsiste sob o fluxo das ideias e dos costumes e constitui a base para seu progresso. As regras que a exprimem permanecem substancialmente válidas. Mesmo que alguém negue até os seus princípios, não é possível destruí-la nem arrancá-la do coração do homem. Sempre torna a ressurgir na vida dos indivíduos e das sociedades (CEC, 2001: 518).

Dito com outras palavras, em todos os lugares e em todas as épocas o homem será impelido pela sua consciência a fazer o bem e evitar o mal, isto é, a respeitar a vida do próximo, sua liberdade, não mentir nem difamar, etc. Pois todas estas obrigações, como veremos mais adiante, emanam da lei natural.

No caso da lei positiva isto não acontece, pois um mesmo ato pode ser legal para um povo e ilegal para outro. Ponhamos um exemplo extraído das leis de trânsito: para um motorista inglês, circular pelo lado esquerdo da calçada é o modo correto de fazê-lo. Se alguém o imitasse no nosso País, incorreria em flagrante ilegalidade, além de se expor a um grave acidente.

Imutabilidade extrínseca

Como ao homem não é dado renunciar à sua condição de criatura humana, e como a lei natural está inserida dentro de seu coração, não é lícito abrogá-la, nem mesmo transgredi-la sem ferir os fundamentos da sua própria dignidade, e não pode dispensá-la, pois constitui um patrimônio inalienável, já que com ela permanece, desde a concepção até a sua morte natural. Esta é uma lei da sua natureza, da sua dignidade, e da sua superioridade como ente racional dotado de liberdade para aperfeiçoar seu ser em direção ao fim absoluto, que é o próprio Deus, Criador de todas as coisas.

A lei natural é imutável e permanente através das variações da história. Subsiste sob o fluxo das ideias e dos costumes e está na base do respectivo progresso. As regras que a traduzem permanecem substancialmente válidas. Mesmo que se lhe neguem até os princípios, não é possível destruí-la nem tirá-la do coração do homem (CEC 2001: 1958).

Convém, entretanto, fazer-se uma importante precisão sobre a imutabilidade extrínseca da lei natural tomando por base a doutrina de São Tomás. Ensina o Doutor Angélico que ela não pode mudar “a modo de subtração, a saber, de modo que deixe de ser lei natural algo que antes fora segundo a lei natural” (AQUINO: 2005, Vol. IV: 569). Mas nada proíbe que mude por algo que se lhe acrescente, como de fato tem acontecido ao longo da História.

O sacrum convivium de Jesus com os discípulos de Emaús

Mons. João S. Clá Dias, EPjesus-e-apostolos

A acolhida afetuosa, o grande respeito dos três interlocutores entre si, a elevação do tema tratado, o tônus da conversa e, sobretudo, a delicadeza e a didática de Jesus fazem do encontro de Jesus com os discípulos de Emaús um dos mais belos episódios do relacionamento humano.

É com vistas a nos ensinar quão benéficos são os efeitos da hospitalidade — qualidade de alma própria àquele que ordenadamente usa de seu instinto de sociabilidade — que a Liturgia de hoje nos propõe considerar a beleza da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús. Nesta narração, ambos deixam entrever o quanto possuem um coração afetuoso, caritativo e generoso para com um desconhecido que os alcança pelo caminho. Eles não têm a menor fímbria de respeito humano em explicar ao forasteiro os principais aspectos da vida, paixão e morte de Jesus, como o próprio desaparecimento de seu Sagrado Corpo, sempre levados por uma sociabilidade virtuosa tão rara nos dias de hoje e tão indispensável para um convívio agradável.

Consideremos o grande respeito usado pelos três entre si nesse episódio, como também a elevação do tema por eles tratado e o tônus da conversa. Como seria altamente formativo o poder-se reconstituir tal qual se deu esse convívio dos dois com o Divino Mestre ressurrecto! De imediato, configurar-se-ia diante de nossos olhos o grande contraste com os encontros tão comuns e correntes na atualidade. Quanto teríamos a aprender desse sacrum convivium!

Qual a realidade do ser?

Mons. João S. Clá Dias, EPpensadores

Os filósofos gregos que se dedicaram a resolver esse árduo problema — indagando a respeito da origem das coisas, no que consistem, qual o princípio primeiro de tudo — elaboraram várias teorias.

Sem pretender dar uma lista exaustiva das soluções propostas, lembramos, por exemplo, Thales de Mileto, cuja conclusão era de que esse princípio era a água, que impregna todas as coisas. Os filósofos posteriores rejeitaram sua explicação, argumentando que a água é um elemento extremamente mutante.

Abordando o problema da mutação do mundo material, Platão procurou solucioná-lo dizendo que as coisas participam de ideias imutáveis, um pouco como a sombra depende de um objeto real. As essências, os universais, são imutáveis e existem no mundo das ideias. Essas ideias são a verdadeira realidade, e independem das coisas.

Seu discípulo Aristóteles, um fino observador das coisas, discordou do mestre, atribuindo importância ao mundo material. Ele resolveu o problema da permanência e mudança introduzindo noções de potência e ato, as quais aparecem como matéria e forma. As coisas da natureza estão em ato, são reais, mas têm potência para sofrer mudanças.

A partir de Aristóteles, a filosofia passou a ter por objeto estudar o ser enquanto ser, e não este ou aquele ser determinado. Estava iniciada toda uma metafísica do ser, cujo desenvolvimento último é devido de modo particular à genialidade de São Tomás de Aquino.

Além de aperfeiçoar as noções de potência e ato, São Tomás mostra que essência e existência guardam, entre si, a proporção de passivo e ativo, analogicamente à matéria e à forma, que são como potência e ato. São duas realidades da mesma coisa.A existência é realmente distinta da essência, pois o ato de ser se distingue de sua potência, que o recebe e o limita.

Em termos mais simples, a essência se atualiza, ou seja, passa de potência a ato, o que significa ainda, adquire existência, em cada ser particular e concreto. Não importa que um cavalo seja grande ou pequeno, forte ou fraco, negro, alazão ou rajado, nem importa que tenha nascido com algum defeito. Em todos a mesma essência “cavalo”, ou a “cavalaridade”, se atualiza, se torna real. A essência não é algo de meramente abstrato, mas também não existe por si só. Ela existe de fato, mas somente no ser real.

A essência é, pois, potência; pode existir ou não. De seu turno, o ato de seresse.A essência, por si mesma, não pode passar de potência a ato, ou seja, vir a ter existência. É preciso haver um ato criativo e, portanto, um Criador, um Ser no qual essência e existência sejam inseparáveis. Em Deus, o Ato de Ser e a Essência se identificam: Ele é Ato Puro, Eterno e Necessário, capaz de subsistir independentemente de qualquer potência.

Já as criaturas são seres contingentes, e poderiam não existir; seu ser chegou ao ato, à existência, depois de estar em potência.

As criaturas participam do ato de ser em graus diversos, segundo suas respectivas essências: quanto mais perfeitas são, maior é o ato de ser do qual participam. Desse modo, um pedregulho participa do ato de ser de um modo menos intenso que uma rosa. E uma formiga, de um modo menos intenso que um leão. O homem, por sua vez, participa desse ato menos intensamente que os anjos. Assim, a fonte última de toda perfeição individual é o esse.

Esta é, pois, uma das principais doutrinas metafísicas de São Tomás: a distinção real entre essentia e esse. Sem ela o ensinamento tomista sobre essência e existência torna-se incompreensível.

João Paulo II: Um Papa carismático e popular

papa-joao-paulo-iiSão Paulo (Domingo, 1º de maio, 2011, Gaudium Press)

Carismático e popular. Se há dois predicados que emanam sobre a personalidade de João Paulo II em um primeiro momento são esses. Foi sob essa aura de forte empatia e afinidade com o rebanho católico que João Paulo II conduziu seu duradouro papado de 26 anos, um dos mais longevos da história recente da Igreja. Mas João Paulo II, o Papa, foi mais que uma personalidade de carisma e popularidade, e diversas outras alcunhas lhe são atribuídas por conta da maneira, como “Papa peregrino”, “João de Deus”, o “Papa dos jovens”…
Tudo começou no dia 16 de outubro de 1978. Naquele dia, perdurava o conclave que se reunia novamente menos de três meses após ter eleito o cardeal Albino Luciani Papa João Paulo I (no dia 28 de setembro, 1 mês e três dias após a eleição, João Paulo I falecia de enfarte, tornando-se assim um dos Papas mais breves da Igreja).
Depois de algumas horas de votação, o cardeal Pericle Felici vinha à Praça de São Pedro, onde a multidão se reunia ansiosa, e anunciava para o mundo, antes da aparição do Papa eleito:
“Annuntio vobis gaudium magnum: (Anuncio-vos com grande alegria)
Habemus Papam! (Já temos o papa!)
Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum (O Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor)
Dominum Carolum (Dom Carlos (Karol)
Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem Wojtyla (Cardeal da Santa Igreja Romana, Wojtyla)
Qui sibi nomen imposuit (Que adotou o nome)
Joannis Pauli de João Paulo II)”
Começava ali o terceiro maior pontificado da história da Igreja Católica, que durou quase 27 anos, sendo superado apenas por São Pedro, o primeiro Papa, que reinou ao longo de 34 anos, e pelo Papa Pio IX, cujo pontificado se estendeu por 31 anos.

Números
O pontificado de João Paulo II foi de recordes, muito graças a idade relativamente baixa com que assumiu o trono de Pedro. João Paulo II tinha 58 anos. Durante o seu pontificado, o Papa Wojtyla proclamou 482 santos e 1.314 beatos (Desde 2005, Bento XVI beatificou 790 pessoas e canonizou 34 santos). Como já dito, foi João Paulo II quem primeiro abriu o precedente de não esperar por cinco anos após a morte do candidato às honras do altar para que o processo de beatificação tenha início. João Paulo II beatificou Madre Teresa de Calcutá apenas quatro anos após seu falecimento.
Karol Wojtyla, o primeiro papa eslavo e polonês da história e o primeiro não-italiano em mais de quatro séculos, escolheu o nome pontifício de João Paulo II em homenagem ao seu antecessor, morto precocemente. Como lema, elegeu “Totus Tuus”, homenagem à Virgem Maria: “Sou todo teu, Maria”, sendo que ele colocou toda a sua vida sacerdotal sob a proteção da Virgem.
Aliás, foi João Paulo II Papa que revelou o terceiro segredo de Fátima, contido na carta da Irmã Lúcia, e que estava sob sigilo dos papas desde a década de 40. E o segredo falava justamente de um atentado a um pontífice. A ele.
Em 13 de maio de 1981, durante uma audiência papal a céu aberto na Praça de São Pedro, o Papa João Paulo II abaixou-se para abraçar uma menina que estava vestida com um pequeno retrato de Nossa Senhora de Fátima. Naquele preciso momento, Ehmet Ali Agca, um assassino turco, disparou dois tiros em direção à sua cabeça, a curta distância. As balas erraram o Papa mas acertaram dois peregrinos que estavam próximos.
Agca disparou novamente atingindo o Papa no abdômen. Se ele não tivesse se abaixado para abraçar aquela menina usando o retrato de Maria, aquelas duas balas teriam varado o seu crânio provavelmente matando-o instantaneamente. Levou seis meses para que ele se recuperasse totalmente das feridas. João Paulo II visitou Ali Agca. E o perdoou.
João Paulo II foi o Papa que mais viajou na história, façanha que o levou a ser chamado de “Papa peregrino”, visitando 129 países durante o seu pontificado. No Brasil, ficou conhecido como “João de Deus”, e esteve quatro vezes – três oficiais. Estima-se que falava cerca de 13 línguas: polonês, italiano, latim, francês, alemão, inglês, espanhol, português, ucraniano, russo, servo-croata, esperanto e grego.
O Papa Wojtyla também é considerado o “Papa dos Jovens”. Foi ele quem institui o instituidor das Jornadas Mundias da Juventude, em 1985, que desde então são realizadas a cada três anos em uma determinada cidade.
João Paulo II escreveu 14 encíclicas ao longo de seu pontificado.

Pedro Ozores Figueiredo, com agências